O coitado tinha chifres e um sobrenome de gazela, era culto, pensativo, tão pensativo que transformava a transa em um objeto de estudo, onde ele mal fazia a introdução e a sua senhora, e que senhora, já estava adormecida, nua, deliciosamente angelical. Hobsbawm então se levanta, prepara uma gemada com canela, levemente salpicada em maior quantidade do lado esquerdo em sua caneca redonda com a imagem de um cérebro na frente. Presente de amigo secreto de seu cunhado, e que cunhado.
A noite não era nada perfeita, algumas nuvens, o cheiro de peixe do restaurante da esquina subia devagar gerando uma singela careta em Hobsbawm, pobre Hobsbawm, sentado na cadeira de balanço herdada de sua querida tia avó Berta. O vento entra por debaixo de seu roupão verde musgo com bolsos listrados, ele olha pela cômoda, vê um movimento no inferior da porta da entrada. Uma carta amarela, "Que estranho", pensa nosso esquisito colega, "Uma carta as 23 horas de um Domingo?!". Ele se levanta vagarosamente se espreguiçando, arrasta o chinelo cor-de-rosa de sua amada pelo piso de mogno, quase tropeça no tapete felpudo no qual não se pode pisar, "Grande Inutilidade" pensa nosso herói intelectual olhando ferozmente para a pele de ovelha morta.
Se abaixa, soltando um suspiro de uma coluna roída e rígida, a idade começa a lhe doer. Hobsbawm pega a carta, ele olha para a carta. Resolve virar para ver quem por cargas d'água enviou uma carta no domingo.
"Querida Filha".
Hobsbawm está estático. Sua sogra , e que sogra, já estava morta, suas cinzas moravam naquele mesmo teto a 23 anos, ele olhou para a caixinha preta lacrada em cima da cômoda, esperava que ela lhe explicasse porquê resolveu enviar uma carta para sua filha depois de morrer enquanto transava com o equino a 23 anos atrás?
Ele não sabe se desconfia, desconfiar é muito feio, coloca a carta na mesa de centro, ao lado do querido Marx, como chamava seu pequeno livreto para as noites de insônia. Sentou-se na cadeira de balanço, pegou sua caneca de gemada e ficou a olhar para a carta. Ele queria abrir, precisava saber se aquele anjo em sua cama era um demônio disfarçado, prestes a rasgar seu peito para anular qualquer sentimento de amor que ali morava, junto com seu pulmão já acabado pelo fumo.
Ele segurou a ponta daquela estranha e intrigante carta amarela e rasgou vagarosamente. Como se aquilo fosse o esparadrapo de sua ferida, e ele não queria puxar de uma vez, foi sentindo a dorzinha bem devagar.Abriu.
Pegou aquelas folhas delicadas, todas cheias de escritos que ele sentia vontade de queimar, e começou a ler...
[Continua]